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sábado, 19 de junho de 2010

Vida e Obra de José Saramago

Revista Veja - 18/06/10 - Literatura

Conheça a vida e a obra do escritor José Saramago

18 de junho de 2010
Por Maria Carolina Maia

Saramago se tornou um dos principais nomes da literatura de língua portuguesa (Foto: AFP)

José de Sousa Saramago nasceu numa família de camponeses da Aldeia de Azinhaga, ao sul de Portugal, em 1922. Seus pais eram analfabetos. Sua origem influenciou o modo de escrever, caracterizado pela liberdade no uso da pontuação. "Meu estilo começou em 1979, quando eu estava escrevendo Levantado do Chão. O mundo que eu descrevia era o Portugal rural, durante os primeiros dois terços do século passado - um mundo no qual a cultura de contar histórias predominava, e eram passadas de geração a geração, sem que se usasse a palavra escrita", disse o escritor ao jornalista australiano Ben Naparstek, lembrando que, quando se fala, não se usa pontuação. A entrevista foi incluída no livro Encontros com 40 Grandes Autores.

Com um estilo próprio, Saramago conquistou em 1983 o Prêmio Camões, a mais importante distinção dada a um escritor em língua portuguesa - recebida neste ano pelo poeta Ferreira Gullar - e, em 1998, o Prêmio Nobel de Literatura.

Levantado do Chão é um dos livros que mais falam de Saramago. Ao mostrar a luta do povo contra a opressão dos latifundiários e das autoridades oficiais e clericais, o romance faz ecoar a opção política do escritor, que se dizia socialista até o fim da vida. Considerado hoje o seu primeiro grande romance, Levantado do Chão também merece destaque por ter dado notoriedade a Saramago, que por ele recebeu o Prêmio Cidade de Lisboa, em 1980, e o Prêmio Internacional Ennio Flaiano em 1982.

Sua atividade como escritor, no entanto, havia começado muito antes, em 1947, com o livro Terra do Pecado. Após um hiato de 19 anos, lança, em 1966, Os Poemas Possíveis, seu primeiro livro de poesia. Três anos depois, se tornaria membro do Partido Comunista Português. Atuando como crítico literário e jornalista, em 1975, chegaria à direção-adjunta do Diário de Notícias. Mas, já no ano seguinte, fugindo à opressão do Salazarismo, regime totalitário que dominava Portugal, passaria a viver de literatura. Num primeiro momento, como tradutor. Em seguida, como autor.

Depois de Levantado do Chão, chamaria a atenção com os romances O Ano da Morte de Ricardo Reis (1984), A Jangada de Pedra (1986) e O Evangelho Segundo Jesus Cristo (1991), cuja inspiração lhe veio de um golpe de vista. Andando pela rua, o escritor acreditou ter lido, na manchete de um jornal, aquele que viria a ser o título da obra, e a partir daí nasceu a ideia de contar o Novo Testamento pela visão de Jesus Cristo, e não mais de um de seus apóstolos.Foi por este livro que Saramago deixoiu Portugal, no início da década de 1992. A inscrição de O Evangelho Segundo Jesus Cristo para o Prêmio Literário Europeu, em 1992, foi vetada pela Secretaria de Cultura portuguesa. As vendas dispararam, mas, aborrecido, o escritor mudou-se para Lanzarote, nas Ilhas Canárias.

Sobre Levantado do Chão, outra curiosidade: o título foi tomado de empréstimo pelo compositor Chico Buarque, que participou juntamente com Saramago e o fotógrafo Sebastião Salgado de um projeto relacionado ao Movimento dos Trabalhadores Rurais sem Terra (MST). "Como então? Desgarrados da terra? Como assim? Levantados do Chão?", diz a letra da canção Levantados do Chão.

O Ensaio Sobre a Cegueira (1995) é outro destaque da obra de Saramago. O livro foi adaptado para o cinema em 2008 pelo brasileiro Fernando Meirelles, segundo quem Saramago não gostava de falar de literatura. Para ele, haveria assuntos mais importantes a discutir. Casado com a jornalista espanhola Pilar del Rio, Saramago deixa uma filha e dois netos do primeiro casamento.
Algumas das principais obras de Saramago:

Levantado do Chão (1980)
Memorial do Convento (1982)
O Ano da Morte de Ricardo Reis (1984)
História do Cerco de Lisboa (1989)
O Evangelho segundo Jesus Cristo (1991)
Ensaio sobre a Cegueira (1995)
As Intermitências da Morte (2005)

José Saramago será cremado em Lisboa

Revista Veja - Literatura - 18 de junho de 2010

O escritor José Saramago, que morreu nesta sexta-feira em sua casa nas Ilhas Canárias, na Espanha. (Foto: AFP)
 
O escritor português José Saramago morreu nesta sexta-feira, aos 87 anos. Ele estava em casa, na ilha de Lanzarote, no arquipélago de Canárias. A informação foi divulgada pela editora espanhola Alfaguara, que publica os livros do escritor. O corpo de Saramago será trasladado neste sábado para Lisboa, onde será cremado. Suas cinzas permanecerão em Portugal.
 
Segundo o jornal português Diário Econômico, ele sofria de graves problemas respiratórios. O editor de Saramago, Zeferino Coelho, informou ao site português Diario Digital, que a doença do autor havia se estabilizado, mas acabou se agravando e ele não saía de casa havia várias semanas. Em entrevista à agência EFE, familiares de Saramago disseram que ele lutava contra leucemia.

Uma nota oficial, publicada no blog da Fundação José Saramago, confirmou a morte às 12h30 (hora local, 7h30 no horário de Brasília), "em consequência de uma falência múltipla dos órgãos, após uma prolongada doença". Ainda segundo o comunicado, ele estava acompanhado da família, "despedindo-se de uma forma serena e tranquila".

O corpo do escritor está sendo velado em Lanzarote, 
na Espanha. (Foto: AFP) 
Saramago era um dos maiores escritores da atualidade e ganhou o Nobel de Literatura em 1998, o único conferido a uma obra em língua portuguesa. Seu último livro Caim, publicado no fim de 2009, revisita a história bíblica de Caim e Abel e foi muito criticado pela Igreja.



 
Vida e obra - O autor português nasceu em uma família de camponeses sem terra, em Azinhaga, uma pequena povoação situada na província do Ribatejo, cerca de 100 quilômetros a nordeste de Lisboa. Seu primeiro emprego foi como serralheiro mecânico, mas também foi desenhista, funcionário da saúde e da previdência social, tradutor, editor, jornalista e poeta.
Publicou seu primeiro romance, Terra do Pecado, em 1947. Depois ficou um longo período sem publicar nenhuma obra, até 1966. Entre 1972 e 1973 fez parte da redação do jornal português Diário de Lisboa, para o qual foi comentador político.

A partir de 1976, dedicou-se exclusivamente ao trabalho literário, primeiro como tradutor, depois como autor. Ficou mais conhecido entre os leitores em 1984, com o livro Memorial do Convento. Desde 1993, decidiu dividir o tempo entre suas residências em Lisboa e na ilha de Lanzarote. Foi casado com a jornalista espanhola Pilar del Río por 22 anos.

José Saramago "em obras"

José Saramago

Em torno de José Saramago – as obras inspiradas na obra do autor

18 de junho de 2010
Por Milene Chaves


Há mais para ler sobre José Saramago do que os seus próprio escritos. Ao longo de sua carreira – e principalmente após os anos 1990 –, diversos autores dedicaram-se a temas relacionados ao autor ou sua obra. Há também filmes e documentários, que tratam do trabalho do escritor português, que morreu na manhã da sexta-feira, 18 de junho.

Curiosidade: objeto de estudo, a obra de Saramago é tema de nada menos do que 95 teses – defendidas em lugares tão diferentes quanto o Brasil e a Escócia –, segundo o site da fundação que leva seu nome. Ali, há uma generosa indexação de artigos, entrevistas, críticas etc. relacionados a ele. A seguir, confira uma seleção de obras relevantes em torno do autor.

 Em papel


Saramago – Biografia (Grupo LeYa, 2010). Do português João Marques Lopes. O livro acompanha a trajetória do escritor, de seu nascimento na Aldeia da Azinhaga, Portugal, até a confecção do último livro, Caim.

Saramago – um Roteiro para os Romances (editora Ateliê, 2000). O livro é um guia para ler os livros do escritor e deve ser reeditado - e atualizado - no mês que vem.

José Saramago - A Consistência dos Sonhos, de Fernando Gomez Aguilera (Texto Editores, 2008). Biografia dividida em 9 capítulos, cada um dedicado a uma década da vida do escritor, mais cerca de 160 fotografias impressas em cores.

Uma Longa Viagem com José Saramago, de João Céu e Silva (Portugal, Porto Editora, 2009). Respostas de José Saramago analisadas por vinte e quatro outros entrevistados, que comentam suas declarações e a prática da escrita.

José Saramago: o Amor Possível, de Juan Arias (Manati, 2003). O jornalista espanhol entrevistou o Nobel de Literatura durante sete horas. Do encontro nasceu o livro, em que ele fala de política, literatura e Deus.

Correspondência 1959-1971 (Portugal, 2010, Caminho), tem organização de José Albino Pereira das cartas trocadas entre José Rodrigues Miguéis e José Saramago.

José Saramago, de Harold Bloom (EUA, 2005, Chelsea Publishing). O crítico literário norte-americano analisa o escritor neste livro, em inglês.

Em vídeo

Embargo (Portugal/Espanha/Brasil, 2010), de António Ferreira, tem estreia prevista para setembro. Um homem cria um digitalizador de pés e acredita que o invento vai revolucionar a indústria do calçado. Ao tentar vender o equipamento, vê sua vida embargada. O argumento do filme foi criado a partir do conto homônimo do autor, incluso no livro Objecto Quase.

Janela da Alma (Brasil, 2002), de João Jardim e Walter Carvalho. Saramago, autor de Ensaio sobre a Cegueira, é um dos 19 depoentes que falam sobre graus de deficiência visual – nos sentidos denotativo e conotativo – neste documentário de 73 minutos. Leia sobre e veja um trecho do vídeo.

Língua, Vidas em Português (Brasil/Portugal, 2001), é um documentário dirigido por Victor Lopes. Filmado em seis países - Brasil, Moçambique, Índia, Portugal, França e Japão -, conta com a participação de Saramago à beira do Tejo, em Ginjal. Leia sobre e veja um trecho do vídeo.

A Maior Flor do Mundo (Espanha, 2006) é uma animação de Juan Pablo Etcheberry, baseada em conto de Saramago. O próprio escritor é personagem e dublador de si mesmo nesta história de um menino que faz nascer a maior flor do mundo.

União Ibérica (Portugal, 2008), de Miguel Gonçalves Mendes, é um documentário sobre a história de amor entre Saramago e Pilar Del Rio, sua mulher por mais de vinte anos. Ainda sem data de estreia (título provisório).

A Jangada de Pedra (Holanda, 2002), de George Sluizer, é é extraído da obra homônima. Parte do continente europeu se parte e navega, tal e qual uma jangada.

No palco

Em 2001, O Evangelho Segundo Jesus Cristo ganhou adaptação de Maria Adelaide Amaral para o teatro. Com direção de José Possi Neto, tinha Maria Fernanda Cândido e Eriberto Leão no elenco.

O Conto da Ilha Desconhecida foi levado aos palcos também em 2001, pela Cia. Pé na Porta, formada por jovens atores, com direção de Paulo Marcos. Em 2010, o mesmo texto ganhou adaptação para teatro de bonecos feitos de cabaça, pelo Grupo Teatro Kabana, de Sabará (MG).

Ensaio sobre a Cegueira ganhou versão para os palcos - portugueses - em 2004. Já Memorial do Convento se tornou ópera, em adaptação do italiano Azio Corghi. Ganhou o nome de Blimunda (personagem da obra) e estreou em 1990 em Milão.

Um roteiro para os romances de Saramago

Livros

Editora Ateliê também vai reeditar obra sobre Saramago

18 de junho de 2010
Por Maria Carolina Maia


ReproduçãoSaramago – um Roteiro para os Romances, livro lançado pela editora Ateliê em 2000, deve ganhar uma nova edição, atualizada, já no mês que vem. O projeto de reeditar o livro foi iniciado pela editora já no começo do ano, mas, com a morte do escritor português, nesta sexta-feira, seu lançamento foi antecipado de setembro pra julho. No momento, o livro está indisponível no estoque da editora.

"É uma hora certa para relançar, porque é um roteiro para leitura dos romances dele", diz Plínio Martins Filho, editor da Ateliê. A atualização da obra consiste na inclusão de títulos que não haviam sido contemplados pelo autor, o jornalista e professor Eduardo Calbucci.

A primeira edição de Saramago – um Roteiro para os Romances vai até Ensaio sobre a Cegueira, romance de 1995. Agora, o livro tratará também de obras como Ensaio sobre a Lucidez (2004), As Intermitências da Morte (2005) e A Viagem do Elefante (2008).
Confira aqui depoimento de Eduardo Calbucci, autor de Saramago – um Roteiro para os Romances, sobre a morte do escritor.

Biografia de José Saramago

Literatura

Lançada há três semanas, biografia de Saramago terá reimpressão

18 de junho de 2010
Por João Marcello Erthal

Lançada no Brasil há três semanas, a biografia de José Saramago escrita pelo português João Marques Lopes tinha, até a manhã de hoje, 11.000 exemplares em estoque. Em alguns minutos, após a divulgação da morte do escritor, os pedidos de revendedores zeraram o que havia disponível na editora LeYa. "Já encomendamos a reimpressão de 50.000 exemplares", disse a VEJA.com o diretor editorial do Grupo LeYa, Pascoal Soto, que publica no país o trabalho de Marques Lopes. Leia aqui o primeiro capítulo da obra.

Saramago e Caim


Revista Veja  »  Edição 2135 / 21 de outubro de 2009

Livros

O réu supremo

José Saramago revisita a história bíblica de Caim,
que matou o próprio irmão, Abel. Na sua versão,
a culpa do assassinato é de Deus


Jerônimo Teixeira
Martinez de Cripan/Corbis/Latinstock
PROVA TEOLÓGICA
Saramago: por que Deus não toma café com o papa?


Parece que o ateu José Saramago só aceita uma prova da existência de Deus: que o Senhor apareça para tomar café com o papa. Em um debate público em Roma, na semana passada, o escritor e Nobel de Literatura acusou Bento XVI de "cinismo", por invocar um Deus com o qual "nunca se sentou a tomar um café" (todos sabem que uma divindade que preferisse chá teria um estatuto ontológico duvidoso). O expediente fácil de aproximar o prosaísmo – o café – dos mistérios teológicos repete-se quase a cada página de Caim (Companhia das Letras; 176 páginas; 36 reais), o novo livro do escritor português de 86 anos. À lógica mítica que governa a nar-rativa da Criação no Gênesis, o autor justapõe uma razão miúda e prática. Pergunta-se, por exemplo, por que Deus não cercou a árvore do fruto proibido com arame farpado para evitar que Adão e Eva se servissem dela. O expediente garante ao livro um certo humor grosseiro – mas Caim não é uma comédia: estamos diante de um pretensioso acerto de contas com Deus. 
 
Os temas bíblicos já foram explorados por Saramago, com melhor proveito, em O Evangelho Segundo Jesus Cristo, livro que provocou algum escândalo. Em Caim, é nítido o esforço para alcançar a nota polêmica, erguendo o primeiro fratricida da Bíblia à categoria de herói. Na versão de Saramago, Caim, depois de matar seu irmão Abel, viaja sem destino através do mundo e do tempo. Abraão, Moisés, Jó – vários personagens bíblicos cruzam pela narrativa. No episódio em que Caim acompanha as campanhas militares de Josué pela Terra Santa, Saramago emprega uma linguagem que beira o antissemitismo ("como sempre tem sucedido, à mínima derrota os judeus perdem a vontade de lutar"). Diante dos desmandos de Deus (e dos judeus), Caim aparece como uma pobre vítima das circunstâncias. A culpa do fratricídio pertence a Deus, que o induziu ao erro. No final, Caim comete outros, piores crimes (que implicariam nada menos que o fim da humanidade), em um ato de rebeldia contra a tirania divina. No lugar dos ancestrais mitos judaicos, o escritor comunista instaura a antiquada mitologia esquerdista do terrorista heroico. Entre Deus e Stalin, sabemos com quem José Saramago gostaria de compartilhar seu café.

Nobel da literatura portuguesa

Revista Veja - 14/10/98

O nobel em português

Depois de anos de expectativa, José Saramago
é o escolhido pela Academia Sueca
Carlos Graieb

"Antes eu dizia: 'Escrevo porque não quero morrer'. Mas agora mudei. Escrevo para compreender. O que é um ser humano?"
À1 hora da tarde da última quinta-feira, o escritor português José Saramago encontrava-se na sala de espera do aeroporto de Frankfurt. Ele tinha viajado até a cidade alemã, palco do maior evento editorial do mundo, a Feira do Livro de Frankfurt, como representante da literatura de seu país. Encerrados os compromissos, preparava-se para voltar para casa, nas Ilhas Canárias, onde vive desde 1992 com sua mulher, a jornalista espanhola María del Pilar. Ele sabia que naquele exato momento, em Estocolmo, o secretário-geral da Academia Sueca, um lingüista chamado Sture Allen, deveria estar dando início a um antigo ritual. Ele deixaria seu escritório e caminharia até um salão de gala. Diante de uma platéia lotada de jornalistas, anunciaria o Prêmio Nobel de Literatura. Há mais de nove décadas esse é um momento aguardado com ansiedade por romancistas, poetas e dramaturgos de todas as latitudes. Mas, desta vez, Saramago decidiu não se preocupar com a ocasião. "Sou apenas uma hipótese", ele aprendera a dizer quando a conversa se dirigia para o prêmio. Estava escolado por várias decepções sucessivas. Nos últimos quatro anos, muita gente havia apostado em seu nome para receber a honraria. Só que a expectativa jamais se confirmava. E, assim, lá estava ele, aguardando um vôo, quando as primeiras notícias chegaram via rádio e televisão: José Saramago era o primeiro escritor de língua portuguesa a ganhar o Nobel — e o milhão de dólares que vem com ele. O autor de belos livros como Memorial do Convento e A Jangada de Pedra resolveu que a melhor atitude era dar meia-volta e retornar à Feira do Livro, onde seus editores internacionais deveriam estar preparando alguma espécie de comemoração. Naquela mesma tarde, ele diria aos amigos que a caminhada pelos corredores desertos do imenso aeroporto de Frankfurt, sabendo que havia alcançado o ponto culminante na carreira de qualquer escritor, comporia para sempre um dos momentos mais estranhos e solitários de sua vida. 

Embora seja o mais celebrado dos prêmios literários, o Nobel está muito longe de ser imune a críticas. O lema da Academia Sueca — "Snille och Smak", ou seja, "Talento e Bom Gosto" — nem sempre é seguido à risca por seus membros. São notórias as omissões. O inglês Graham Greene e o russo Vladimir Nabokov morreram sem receber o prêmio. Isso, sem mencionar o francês Marcel Proust e o irlandês James Joyce, provavelmente os mais influentes escritores do século XX. Ao mesmo tempo, nomes quase esquecidos, como o poeta francês Sully Prudhomme (que derrotou Leon Tolstoi), foram agraciados, assim como o dramaturgo e ator italiano Dario Fo, que os críticos já compararam ao comediante Jerry Lewis, mas nunca a um escritor de importância. Dario Fo venceu no ano passado. Ele também compareceu à Feira de Frankfurt para uma entrevista coletiva, usando camisa cor de abóbora e um lenço extravagante. Como a feira de 1997 tinha Portugal como país-tema, lá estava Saramago, e os dois autores se encontraram para uma sessão de fotos. Era difícil não pensar que uma injustiça havia sido cometida. Fo é um dos equívocos do Nobel. Já Saramago é um grande escritor e, no que diz respeito à língua portuguesa, talvez seu maior romancista vivo. Segundo um artigo recente da revista americana The New Yorker, até mesmo os suecos reconhecem, nos bastidores, que preferir Dario Fo foi uma espécie de piada ou loucura. Devidamente corrigida agora. 

"Lésbica da Ásia" — Criticam-se muito as escolhas de Estocolmo dizendo que elas são inspiradas em bom-mocismo político. Diz a lenda, por exemplo, que o argentino Jorge Luis Borges caiu em desgraça ao aceitar um galardão de Pinochet, o ditador chileno. Historicamente, as simpatias da Academia Sueca tendem para a esquerda e, nos últimos anos, teriam dado mais valor ainda aos clamores das minorias e aos "esquecidos". "Hoje em dia, o candidato ideal para um Prêmio Nobel seria uma lésbica da Ásia", diz, no já mencionado artigo da New Yorker, o crítico literário sueco Mats Gellerfelt, um dissidente da Academia. À primeira vista, Saramago se encaixa no perfil politicamente correto. Filiado ao Partido Comunista na década de 60, ele se afastou da militância nos últimos tempos, mas ainda carrega a carteirinha vermelha no bolso do paletó. Seria um erro crasso, no entanto, reduzi-lo ao estereótipo do escritor engajado. Ele é no máximo um comunista que escreve — e bem. 

Penetrar no universo de José Saramago não é fácil. Seus romances têm ação lenta, as frases são longas, os parágrafos se esparramam por várias páginas, os diálogos irrompem no meio da narrativa introduzidos apenas por vírgulas. Quem vence essas dificuldades iniciais e se adapta ao estilo do autor é largamente recompensado no final. Ao anunciar o Nobel, a Academia Sueca disse que a obra de Saramago oferece "parábolas sustentadas por imaginação, compaixão e ironia, tornando-nos capazes de apreender uma realidade fugidia". Empolado, como tudo que sai de uma academia. Mas a definição faz sentido. Os livros de Saramago não se encaixam na vertente realista. Não se restringem a historinhas e intrigas. Sempre remetem a algum outro plano de interpretação. Assim, por exemplo, Ensaio sobre a Cegueira não se limita a narrar, com humor selvagem e quase surrealista, um episódio bizarro em que todos os habitantes de uma cidade são acometidos de uma doença misteriosa, que lhes tira o poder de enxergar. O romance é também uma alegoria sobre razão e insanidade, ordem e caos. Lidar assim com temas tão amplos — "as grandes questões do ser humano", como costuma dizer Saramago — é um risco para qualquer escritor. O perigo de cair no vácuo, no blablablá grandiloqüente, é difícil de contornar. Saramago, entretanto, se move com desenvoltura. Controla suas metáforas e as explora até as últimas conseqüências. 

Em seus vários livros, Saramago consegue penetrar diversas camadas da expressão literária em português. Memorial do Convento, que o próprio autor já descreveu como um "grande rio", surpreende por seu uso da dicção barroca, suas frases caudalosas, suas idas e vindas. Em obras mais tardias, essa exuberância de pregador, à moda de um padre Vieira, é domada em favor do texto lacônico, mas ainda assim sutil. Fora do universo português, os últimos livros de Saramago fazem pensar no checo Franz Kafka. Ele é, aliás, o grande ídolo de Saramago, o artista que ele considera fundamental entre todos os que escreveram no século XX. O discípulo não está assim tão longe do mestre. 

O pernambucano
João Cabral de Melo
Neto, maior poeta
brasileiro vivo: preterido
Foto: Paulo Jares  
"Visão anti-religiosa" — Embora seja um dos últimos defensores do regime comunista na face da Terra, a literatura de José Saramago não tem uma vertente política pronunciada. O escritor conseguiu ser mais polêmico ao tratar de temas religiosos. Foi chamado de sacrílego por causa do maravilhoso livro O Evangelho segundo Jesus Cristo, em que humaniza o Cristo. Por causa dessa obra, o jornal L'Osservatore Romano, do Vaticano, criticou, na semana passada, a escolha do novo Prêmio Nobel de Literatura. Segundo o jornal, O Evangelho... "dá testemunho da visão essencialmente anti-religiosa do escritor". Paradoxalmente, ao menos na superfície, esse foi o livro de Saramago que mais vendeu no Brasil, maior país católico do mundo. 

Embora escreva num idioma que dificulta sua projeção internacional, o português, José Saramago, traduzido em mais de vinte línguas, é reconhecido nos meios literários da Europa e dos Estados Unidos como um dos grandes do século. Há exceções, claro. O crítico literário da revista Time, Paul Gray, reagiu à premiação com um comentário sarcástico: "Tenho resenhado livros toda a minha vida e nunca ouvi falar dele". A frase diz menos sobre Saramago do que sobre o crítico da Time. Mas para o grande público, fora dos países de língua portuguesa, Saramago é mesmo um escritor pouco conhecido. Essa é uma das coisas boas do Nobel. O prêmio confere notoriedade imediata a seu ganhador e, segundo os mais otimistas, pode ajudar a divulgar a tradição literária em que ele se inclui. Até hoje isso não se verificou — mas, pelo prestígio de que goza junto à crítica internacional, Saramago é sem dúvida mais adequado como embaixador da língua do que os brasileiros Jorge Amado e João Cabral de Melo Neto, outros escritores em português cotados para o Nobel. 

Nascido em 1922, numa aldeia chamada Azinhaga, o autor de O Evangelho segundo Jesus Cristo deveria chamar-se apenas José de Sousa. Saramago, nome de uma plantinha silvestre meio desenxabida, era o apelido que os vizinhos davam a seu pai. No momento de registrar a criança, porém, o funcionário do cartório achou por bem acoplar a alcunha ao nome. E assim ficou, José de Sousa Saramago. Aos 2 anos ele se mudou com a família para a capital, Lisboa. Nessa idade também perdeu um irmão, Francisco, que assumiria um papel importante, várias décadas mais tarde, em sua carreira de escritor. Foi ao procurar o atestado de óbito de Francisco em várias repartições da burocracia portuguesa que Saramago atinou, pela primeira vez, com as idéias que levariam a seu mais recente romance, Todos os Nomes, lançado no ano passado no Brasil. 

A família de Saramago era pobre. Tinha origem camponesa e poderia ser chamada hoje em dia de "sem-terra", como observou ele. Por falta de dinheiro, o futuro escritor nem chegou a completar o ginásio, ou "curso liceal", como diriam os portugueses. Aprendeu o ofício de serralheiro mecânico e arranjou seu primeiro emprego em uma oficina de carros. Ele gosta de lembrar que, até os 20 anos, não possuía nenhum livro. Tudo que lia tomava emprestado de bibliotecas públicas. Nesse período, começou a ensaiar uma estréia na literatura, que ocorreu em 1947 com o romance Terra do Pecado. Esse livro, que acaba de ser reeditado em Portugal como espécie de curiosidade biográfica, até que não era ruim, mas também não chegou a fazer sucesso. Saramago teve a impressão de que nada tinha a dizer e ficou em silêncio por quase vinte anos, durante os quais exerceu a atividade de crítico literário. Só retomou a caneta em 1966, publicando uma coletânea de versos, Os Poemas Possíveis. Seguiram-se a entrada para o jornalismo, uma reunião de crônicas, outra de artigos. 

Em 1975 ocorreu a grande guinada na vida de José Saramago. Na época, aos 53 anos, ele trabalhava como diretor adjunto do jornal Diário de Notícias. Havia pouco mais de um ano, Portugal tinha encerrado, com a chamada Revolução dos Cravos, seu longuíssimo período de ditadura política. Os planos da esquerda pareciam ir de vento em popa quando um grupo de militares resolveu pisar no freio e "normalizar" o país. Eles intervieram também na imprensa e puseram na rua toda a equipe do Diário. Em vez de entrar em pânico, Saramago aceitou o desemprego. Deixou fermentar o talento que o transformaria no mais popular romancista de seu país. "Foi em 1980 que eu me tornei um escritor de verdade", afirma ele em todas as suas entrevistas. Nesse ano, saiu o romance Levantado do Chão. Dois anos mais tarde surgia Memorial do Convento, que, do dia para a noite, faria dele uma celebridade e consolidaria seu estilo inconfundível. O colombiano Gabriel García Márquez, autor de Cem Anos de Solidão, costuma dizer que a melhor coisa de ganhar o Nobel é que o escritor não precisa mais pensar nisso. No caso de Saramago, preterido tantas vezes, essa frase é particularmente adequada.

Biblioteca básica

Os melhores livros de José Saramago
Memorial do Convento
A pretexto de narrar a construção de um convento na cidade de Mafra, durante o reinado de dom João V, Saramago compõe uma epopéia portuguesa. A história é recheada de traições na corte e dos trabalhos infindáveis do povo, gente como um soldado maneta e uma feiticeira. Um retrato a um só tempo satírico e pungente da alma lusitana.
A Jangada de Pedra
De maneira misteriosa, a Península Ibérica se desprende do restante do continente e desliza para o oceano, em direção aos países que Portugal e Espanha colonizaram. Com muito humor e na melhor tradição do romance fantástico, Saramago tece reflexões sérias sobre a política da unificação européia e explora os dilemas da identidade nacional.
O Evangelho segundo Jesus Cristo
Um Jesus Cristo humano, demasiado humano, que conta a história de sua própria vida. O livro mais polêmico de Saramago, que quase lhe valeu a excomunhão, e também o mais vendido. Na época de seu lançamento, o romance teve sua participação em um concurso literário vetada por autoridades portuguesas. O episódio precipitou a partida do escritor para seu exílio voluntário na Ilha de Lanzarote, território espanhol.
Ensaio sobre a Cegueira
"Por que, sendo nós seres dotados de razão, nos comportamos de maneira tão irracional?" Saramago responde a essa pergunta com engenho e ironia, numa história com atmosfera de pesadelo em que todos os habitantes de uma cidade — com uma única exceção — perdem o poder de enxergar.
Todos os Nomes
José, um escrevente de repartição, coleciona recortes de jornal sobre pessoas famosas. Mas as notícias são imprecisas e ele decide checá-las em labirínticos arquivos. Romance que faz eco às obras do escritor checo Franz Kafka, considerado pelo autor português o mais relevante artista do século XX.

Alegria na feira

Neste ano, por coincidência, o Prêmio Nobel de Literatura foi anunciado enquanto na Alemanha se realizava a Feira de Frankfurt, o encontro anual de editores e agentes literários. Os primeiros comparecem ao evento para comprar os direitos de obras que supostamente farão sucesso em seus países. Os segundos tentam empurrar os autores que representam com o alarde de um peixeiro numa feira comum. Anunciada a vitória de Saramago, os brasileiros mais otimistas presentes a Frankfurt preconizaram que ela daria um empurrãozinho na literatura de língua portuguesa em geral. Exagero. O polonês Isaac B. Singer, o egípcio Naguib Mahfuz e o japonês Kenzaburo Oe ganharam o prêmio em anos recentes e nem por isso o mundo passou a consumir mais livros escritos originalmente no idioma desses escritores. Em contrapartida, o fato é que a literatura brasileira, por seus próprios méritos, vem encontrando mais compradores em Frankfurt. "Antes, os brasileiros iam à feira só para comprar títulos estrangeiros. Agora, eles levam na bagagem ofertas nacionais", observa Luciana Villas Boas, diretora editorial da Record, que no segundo dia do evento já havia negociado um pacote de obras de Drummond. "A literatura brasileira está passando por um bom momento no exterior", diz Luiz Schwarcz, da Companhia das Letras, que no mesmo período negociou obras de três autores da nova geração, entre eles Patrícia Melo. A literatura nacional ainda não vende no exterior como banana na feira, mas, em comparação com o passado recente, faz algum sucesso.

 

Memórias - Saramago



José Saramago

Revista Veja  »  Edição 2170 / 18 de junho de 2010

Memória

Senhor polêmica

O escritor e Nobel português José Saramago morre aos 87,
em sua casa nas Ilhas Canárias

Alessandro Albert/Contours by Getty Images
ESTILO E EQUÍVOCO
José Saramago: provocações à Igreja e amizade com Cuba
VEJA TAMBÉM
Único prêmio Nobel de Literatura da língua portuguesa, José Saramago morreu em Lanzarote, nas Ilhas Canárias, na sexta-feira 18, aos 87 anos. Foi cronista, poeta, contista, dramaturgo, jornalista – mas consagrou-se no romance, gênero que exerceu com fôlego enciclopédico. Seus temas incluíram a revisão histórica (Memorial do Convento, História do Cerco de Lisboa), tributos a personalidades literárias (O Ano da Morte de Ricardo Reis) e alegorias críticas da condição moderna (Ensaio sobre a Cegueira). A carreira do escritor português foi marcada pela polêmica, sobretudo com a Igreja – ateu e comunista militante, ele fez provocações com a religião em O Evangelho segundo Jesus Cristo e em Caim, seu último livro. 

Nascido na aldeia de Azinhaga, em 1922, Saramago teve uma infância pobre e nunca frequentou uma universidade. Estreou com o romance Terra do Pecado, em 1947, mas depois passou quase vinte anos sem publicar. Sua consagração, tardia, deu-se sobretudo a partir de Levantado do Chão, de 1980. Agraciado com o Nobel em 1998, Saramago é dos poucos autores contemporâneos em língua portuguesa que conseguiram cristalizar um estilo particular e inconfundível. Ao lado da criação literária, manteve-se sempre ativo, e equivocado, na política. Embora tenha feito críticas insignificantes a execuções de opositores em Cuba, declarava-se um "amigo" da ditadura dos irmãos Castro. Saramago morreu tranquilamente, em sua casa, na Espanha, vítima de complicações pulmonares. Nos países cujos regimes ele defendia, nenhum escritor que ousou discordar teve o luxo de uma morte tranquila.


quinta-feira, 17 de junho de 2010

Ferreira Gullar em poesia

Revista Veja  »  Edição 2169 / 16 de junho de 2010

Livros

Convocado pela poesia

Em entrevista à revista cultural Dicta&Contradicta,
o poeta Ferreira Gullar, prêmio Camões deste ano,
fala de seu processo de criação e de seus anos
de engajamento – e desilusão – na política

Oscar Cabral
"Marx está certo ao criticar o capitalismo do século XIX. Quando propõe a sociedade futura, está errado"

Este é um grande ano para o poeta Ferreira Gullar, 79 anos. O autor de A Luta Corporal acaba de ganhar o Prêmio Camões, a mais importante distinção literária da língua portuguesa. Será também um grande ano para seus leitores: no segundo semestre, ele publica Em Alguma Parte Alguma, primeiro livro de poemas em mais de dez anos. "Só escrevo quando sou convocado pela poesia", diz ele. A edição da revista cultural Dic-ta&Con-tradicta que será lançada nesta semana traz uma longa entrevista com o autor. VEJA antecipa, a seguir, alguns trechos:

Criação poética

O poema não tem plano. Escrevo meio cego. É uma descoberta passo a passo, algo que vai sendo revelado a mim mesmo a cada momento. Eu nunca presto atenção no modo como construo um poema. O poema, para mim, é a grande aventura de como fazer. Costumo dizer em palestras para estudantes que, quando vou escrever um poema, a página está em branco, e isso significa que todas as possibilidades estão abertas, são infinitas. No momento em que sorteio uma palavra, reduzo as possibilidades, o acaso é menor. Mas não sei o que vai acontecer.

A alegria da escrita

O poema é cura, não doença. Escrevo para ser feliz, para me libertar do sofrimento, não para sofrer. É a alquimia da dor em alegria estética. Mesmo quando a coisa é doída, amarga, naquele momento a transformo no ouro que é o poema.

Engajamento

Quando escrevi romances de cordel na época da ditadura, queria fazer mais subversão do que arte. Estava usando a minha poesia para fazer política. A preocupação principal era levar as pessoas a ter consciência dos problemas sociais, como a reforma agrária, as favelas, a desigualdade. Não havia uma preocupação estética. (...) Lembro-me de quando fomos, com o Centro Popular de Cultura, à favela da Praia do Pinto, para fazer um espetáculo, um auto antiamericano, anti-imperialista. Quando chegamos lá, todos os adultos foram embora, ficaram só as crianças ouvindo o Vianinha (o dramaturgo Oduvaldo Vianna Filho) berrar contra o imperialismo. Olhava aquilo e ficava pensando: "O que é isso? Pregando o anti-imperialismo para menino de 5 anos na favela da Praia do Pinto?". Isso foi a um mês do golpe de 1964. Comecei a perceber que a ideia de fazer arte com baixa qualidade só para atingir o povo era falsa.

Enganos da esquerda

Vivi a experiência da União Soviética, em Moscou, e depois vivi o drama e a derrota do (presidente) Allende no Chile – eu estava lá quando ele foi derrubado. Tudo isso me levou a ter uma visão crítica em relação à revolução, em relação às coisas em que nós acreditávamos, aos procedimentos que adotávamos. Aprendi que a coisa era muito mais complexa do que imaginávamos. Sonhávamos em chegar ao poder – e então chegamos ao poder no Chile, com Salvador Allende. E aí? O que aconteceu? Houve uma grande confusão: as esquerdas não se entendiam. Os radicais queriam obrigar Allende a fazer o que não podia ser feito – o que ele sabia que não podia fazer, porque seria derrubado. No fim, foi a própria esquerda que causou a queda de Allende. Aquilo me deixou arrasado. Sacrifiquei minha vida, meus filhos, para me meter numa confusão dessas.

Comunismo

Um professor meu de economia política marxista lá em Moscou me disse o seguinte: "Você sabe quanto tempo levou para que em Paris houvesse, todo dia, às 8 da manhã, croissant para todo mundo, leite para todo mundo, pão para todo mundo, café para todo mundo, e tudo saindo na hora? Alguns séculos". A revolução desmonta uma coisa que os séculos criaram. Agora, o Partido resolve, e não vai ter café, não vai ter pão, leite, nada. Resultado? Trinta anos de fome na União Soviética. Você desmonta a vida! E havia outra porção de erros: afirmavam que quem faz a riqueza é o trabalhador. Mentira! O trabalhador também faz isso, mas, se não existe um Henry Ford, não existe a fábrica de automóvel e não vai ter emprego para você. Nem todo mundo pode ser Bill Gates, nem todo mundo pode inventar uma coisa. Marx está correto quando critica o capitalismo selvagem do século XIX. Quando propõe a sociedade futura, está completamente errado.

Invenção da realidade

Discordo quando dizem que a arte revela a realidade. Na verdade, a arte inventa a realidade. Afirmam que Shakespeare revelou a complexidade da alma humana; não, ele inventou
a complexidade da alma humana. Nós vivemos no mundo da cultura. Quem vive na natureza é macaco e maçã. O índio já tem os mitos e já está dentro do mundo cultural dele, que foi inventado. A poesia é uma dessas criações, no terreno da fantasia, que existe porque a vida não basta. Eu escrevo para ser feliz, escrevo porque estou me inventando, para ser melhor do que sou.

Incoerência

Eu sou incoerente, e a minha obra é incoerente. A Luta Corporal é muito diferente da minha fase de poesia concreta. O livro seguinte a essa fase, Dentro da Noite Veloz, é diferente do próximo, e assim por diante. Não tenho a preocupação da coerência. Se há alguma, está na busca, que muda sempre, porque, enquanto vivo, critico, penso, repenso e invento as coisas que experimentei. Se você quer ser poeta, se quer fazer poesia, se sente dentro de si essa necessidade, deve se entregar a ela sempre com paixão, pois não se inventa a realidade de graça.

sábado, 5 de junho de 2010

Prêmio Camões para Ferreira Gullar

Ferreira Gullar recebe maior prêmio da literatura portuguesa

Ferreia Goulart (Foto: Rogério Faissal/site oficial do poeta)
(Foto: Rogério Faissal/site oficial do poeta)

Goulart se tornou o segundo poeta brasileiro a vencer o prêmio.

O poeta maranhense Ferreira Gullar venceu a edição deste ano do Prêmio Camões, o mais importante prêmio para a literatura de língua portuguesa. Numa reunião realizada esta segunda-feira em Lisboa, o juri do prêmio – composto pelos portugueses Helena Buescu e José Carlos Seabra Pereira, pelo moçambicano Luís Carlos Patraquim, por Inocência Mata, de São Tomé e Príncipe, e pelos brasileiros Antônio Carlos Secchim e Edla Van Steen decidiu atribuir o prêmio ao autor de Poema Sujo. Junto com o prêmio, Ferreira Gullar – nome artístico de José Ribamar Ferreira – vai receber 100 mil euros. O prêmio é atribuído conjuntamente por Portugal e pelo Brasil.

domingo, 23 de maio de 2010

Machado de Assis

Assista ao slideshow produzido pela Revista VEJA.com sobre a vida e a obra de Machado de Assis.

Rascunhos e textos inéditos de Jorge Amado


VEJA.com -  Edição 2166 / 26 de maio de 2010
Memória

Em busca da prosa simples

Rascunhos e textos inéditos de Jorge Amado poderão em breve
ser lidos pela internet. Eles revelam um escritor obcecado
em alcançar a maturidade artística

Marcelo Bortoloti
Zélia Gattai/Acervo da Fundação Casa de Jorge Amado
Racionalidade
Jorge Amado, nos anos 1970: metódico na construção
de seus personagens, ele submetia os textos aos familiares
e chegava a reescrever um mesmo capítulo dezenas
de vezes, sem se dar por satisfeito

Fenômeno literário com mais de 20 milhões de livros vendidos em 55 países, o baiano Jorge Amado (1912-2001) foi um frequente alvo dos críticos – que atribuíam seu estilo pouco erudito a certo desleixo, quando não a uma "preguiça", em relação ao texto. Assim resumia nos anos 1940 o modernista Mário de Andrade, em carta ao aspirante a escritor Fernando Sabino, a opinião de intelectuais da época acerca do baiano: "Garanto que você pode ir longe. Mas não como um Jorge Amado, com pouco trabalho, ignorância muita e criação de sobra. Você tem de trabalhar dia por dia. Como um Machado de Assis". Quase uma década depois da morte de Amado, um conjunto de rascunhos datilografados (e muito rasurados) por ele durante a produção de 25 de seus livros descortina um lado até então desconhecido de seu intenso processo criativo. A coleção de papéis – um calhamaço de 17.000 páginas que a Fundação Casa de Jorge Amado, em Salvador, está digitalizando para disponibilizar na internet até agosto – revela um autor extremamente sistemático na construção do texto, capaz de reescrever um mesmo trecho dezenas de vezes, sem se dar por satisfeito. De "possuidor de má fama", por exemplo, o capitão Justiniano Duarte da Rosa, amante da personagem-título de um de seus livros de maior sucesso, Tereza Batista Cansada de Guerra, torna-se (na quarta versão) um sujeito "atrabiliário, violento, brigão, maus bofes e maus instintos".

Há um consenso entre os poucos especialistas que já se debruçaram sobre a pilha de escritos de que ela traz à luz um autor para quem o ato de escrever era profundamente racional – e não motivado pela intuição, como se pensava. Afirma o historiador Alberto da Costa e Silva, estudioso da obra de Jorge Amado: "Seu estilo simples e direto é, na realidade, fruto de um trabalho incansável, que chama atenção pela autocrítica severa e por um esmero nos detalhes". A série de rascunhos revela ainda uma Zélia Gattai, escritora com quem o baiano foi casado por 56 anos, no papel de crítica implacável. Zélia era, antes de tudo, uma revisora atenta, que lia os escritos do marido assinalando os frequentes erros de português (Amado jamais absorveu as mudanças ortográficas estabelecidas em 1943). A escritora, a quem ele se referia como "minha cúmplice na aventura da vida", palpitava ainda sobre o destino dos personagens, construídos meticulosamente. Para se ter uma ideia, às voltas com a criação de Tereza Batista, em 1972, Jorge Amado decidiu, a pedido da mulher, trocar de lugar o dente dourado da protagonista, de modo a escondê-lo. "Cada vez que Tereza sorrir, será uma tristeza", Zélia argumentava. Esse único detalhe consumiu horas a fio de exaustiva discussão. Além das sugestões da mulher, Amado considerava ainda as opiniões da filha Paloma, do irmão James e da cunhada Luíza, que conta a VEJA: "Quando Jorge aprovava uma ideia, ele a acrescentava ao livro, que ia ficando maior a cada nova versão".

O acervo da Casa de Jorge Amado guarda ainda dois títulos inéditos do autor, ambos escritos na juventude: o romance Rui Barbosa Número 2, de 1932 (que se seguiu à sua estreia, com O País do Carnaval), e A Estrada do Mar, livreto de poemas de 1938. Os estudiosos concordam que nem de longe eles fazem lembrar o escritor que atingiria o ápice com obras como Dona Flor e Seus Dois Maridos e A Morte e a Morte de Quincas Berro d’Água, eternizados pelos tipos bem brasileiros e pela narrativa recheada de humor e ironia. Os textos inéditos mostram um escritor ainda muito imaturo, afeito a clichês e jargões de militante (justamente àquela época, Amado havia se filiado ao Partido Comunista, em que permaneceria até 1956). Ele tinha apenas 20 anos quando escreveu Rui Barbosa Número 2, cujo personagem-título, que ganhou essa alcunha pela oratória afiada, tem como amigo um sujeito em dúvida entre a adesão ao comunismo e "a rendição ao sistema". Desaconselhado a publicá-lo, o baiano contaria em seu livro de memórias, Navegação de Cabotagem, que, muito decepcionado, decidira jogar o original no lixo. Anos mais tarde, ele apareceria em meio aos rascunhos de Amado. Quanto aos poemas (veja exemplo ao lado),
eles pecam pelo lugar-comum. Um dos raros a lê-los, o doutor em letras José Maurício de Almeida, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, conclui: "Jorge Amado fez inúmeras tentativas fracassadas, até se tornar de fato um escritor de relevo".

Autor brasileiro mais adaptado para o cinema e a televisão, Amado foi também o primeiro a ter sua obra amplamente difundida no exterior. Em 1948, com o Partido Comunista posto na ilegalidade e seu mandato de deputado federal cassado, ele decidiu mudar-se para Paris, onde manteve amizade com intelectuais e artistas como Jean Paul-Sartre e Pablo Picasso. Vaidoso, guardava absolutamente tudo o que escrevia – uma montanha de papéis que lotava as caixas espalhadas por todos os aposentos de sua casa, no bairro do Rio Vermelho, em Salvador. Quinze anos antes de morrer, ele doou esse material à fundação. Trata-se de um caso bem raro de preservação de acervo pessoal por parte de um escritor brasileiro, algo relevante. Os rascunhos de Jorge Amado, afinal, ajudam a compreender melhor o grande escritor.
Livros inéditos e a mão de Zélia
Os poemas que o baiano escreveu em 1938 são marcados por lugares-comuns (1);
os erros ortográficos nos rascunhos de Gabriela, corrigidos pela mulher (2);
e trechos do romance Rui Barbosa Número 2, de 1932, dominado pelo tom panfletário:
ele gostava de guardar em casa tudo o que escrevia